Residencial Vimioso

Por certo o final de semana seria diferente. Marido e filha viajando, a casa todinha minha. Perfeito! Tão perfeito que depois de duas horas na frente da televisão estava irritada. Sem muito que fazer liguei para algumas amigas. Quem sabe sair, ir ao cinema... Mas todo mundo tinha compromisso. Alguns sugeriram que eu me juntasse, ao casal, ao grupo. Recusei.

Como desculpa já que tinha provocado o convite e agora me esquivava disse que ia aproveitar pra testar a técnica da aquarela.

Sobre a mesa da cozinha, coloquei uma toalha. Com uma espátula separei a folha grande de papel reciclado própria pra este tipo de pintura. Também escolhi pincéis, tintas, mas. A única coisa que consegui fazer foi um monte de borrões. Daí que tinha de esperar secar e com isso me distraia. Olhava o telefone, voltava pra TV, consultava a agenda. Desisti. Não se pode aquarelar sem concentração. Ler então...

Jamais pensei que num sábado só meu decidisse ir pra cozinha preparar molho de macarrão. Pois bem, foi o que fiz. Com isso garantiria meu almoço de domingo e guardaria o restante pra surpreender a filha e o marido quando chegassem à noite.

Lavei, cortei os tomates coloquei na panela com um pouco de azeite. Quando essa mistura começou a fazer água, diminui o fogo, coloquei uma pequena pitada de orégano. Pequena mesmo. E fiquei pensando que um pouco de manjericão ali seria tudo de bom.

Manjericão, àquela hora?

Liguei na portaria e perguntei pro zelador se por acaso no jardim do prédio tinha. Não é que tinha?

Então pedi que colocasse um galhinho pra mim no elevador. Meu prédio é pequeno, e esse sistema de entregas muito comum.

Quando o manjericão chegou, vinha acompanhado da minha vizinha do andar de cima. Cristina.

- Belinha, ta fazendo pizza?

- Oi Cris, não, molho de macarrão.

- O cheiro está delicioso. Está sozinha?

- Estou, então me meti a fazer molho.

Ela riu.

- Olha precisamos conversar. Você vai à reunião de condôminos esta semana?

- Tenho de ir. Esta confusão da saída do síndico...

- Então ta, outra hora a gente conversa.

Ela me entregou a erva, eu voltei pra cozinha. Lavei o manjericão, deixei de lado aguardando que o molho apurasse.

Então tocou o interfone. Era Cristina.

- Belinha, Também estou sozinha. Fiquei pensando no teu macarrão. Posso te fazer companhia?

- Bem, o molho não era pra hoje. Mas venha eu cozinho um pouco de massa pra nós.

Em poucos minutos a campainha tocou e Cristina entrou com uma garrafa de vinho tinto Argentino, sua terrinha.

- Olha trouxe um vinho...

- Hum que este jantar vai acabar saindo no capricho. Mas ó Cris vai ser regulado, só tenho metade de um pacote de macarrão.

- Oras, num é você que tem máquina de fazer macarrão?

-É... mas...

- Vamos lá, eu te ajudo a gente vai conversando e você já deixa pronta massa caseira pro teu pessoal.

- Será que tenho esse pique?

- Sinta o cheiro deste molho. Ele merece.

Sem certezas, tirei a maquininha do armário, limpei o pó e Cristina abriu a garrafa de vinho.

Enquanto amassava os ingredientes, que são poucos, farinha, água, ovo e sal, Cristina tentava me convencer a juntamente com ela nos tornarmos síndicas do prédio.

- Bel, já reparou como este prédio anda sujo, as pastilhas estão imundas. Entra síndico, saí síndico e ninguém se preocupa com a fachada do prédio e nem com o jardim. Só tem manjericão e boldo, arrematou ela.

- Cris, você é médica, trabalha o dia todo, eu também passo a maior parte do tempo fora de casa. Não tem jeito.

- A gente se organiza não se esqueça que somos as únicas estrangeiras daqui.

Dei risadas, eu sou brasileira, Cristina argentina os demais moradores todos portugueses.

- Taí um bom motivo pra eu não topar. Você é bem capaz de querer trocar o nome do prédio por Edifício Carlos Gardel. Nada contra, mas que ia provocar uma segunda revolução dos cravos..

- Trocar o nome? Imagine... Mas que ia colocar um pôster do Maradona no elevador isso ia sim... Olhe, se você topar quem sabe a gente consiga ativar a idéia de usar mais o salão de festa. Durante a semana podia ser transformado numa academia.

- Cris, tirando minha filha e a tua, somos as mais novas do prédio, e já passamos dos 50. Ninguém vai topar montar uma academia.

A conversa ia, o vinho também, as risadas cresciam e sobre a mesa enfileirava-se uma grande quantidade de macarrão pra secar.

Coloquei água pra ferver, cozinhei um pouco de macarrão. Cobri a massa restante com uma toalha e de prato na mão fomos para o sofá da sala. Lá, desistimos de ser síndicas. Falamos dos filhos, maridos, e fiquei sabendo até da última fofoca do prédio. Uma separação. Ele com 92 anos e ela 86. Um choque minha amiga dizia ela, um choque.

Assistimos ainda um filme antigo, em branco e preto, onde se misturava solidão, risadas entorpecimento. Cris se despediu, juntei os pratos na pia, e me deixei ficar no sofá, enquanto a televisão cumpria um único papel, o de encher de barulhos minha sala.

Por certo o final de semana estava se mostrando bem diferente..

 

maria izabel