Retrato sem retoque...


Então ela chegou. A idade madura.

Noites sem sono, dias quietos. Uma mulher inquieta. Jogada no sofá. Abraçada aos joelhos. Travesseiro úmido. Plena de escuridão.

Os espaços em branco foram se mostrando. Sem pressa, "devagarmente".

O olho sentiu o vazio do tato. Encheu-se de lágrimas que não escorreram.

O tato ansiou por novos paladares:

- Maracujá doce, morango do mato, acerola madura. E por cheiros de natureza indomável. Feito furacões e tempestades.

Ela me transformou personagem de teatro mambembe.

No palco da rua, incrédula, observava os espectadores com olhos e ouvidos de primeira vez. As palavras agora tinham novos significantes. E novos significados se fizeram sentir.

Quando descarrilei. Ontem? Hoje?

Não sei. Sei que vieram cores. Acentuei traços. No batom, no tom do esmalte, na cor da roupa. O palco da rua recebia antiga personagem, com outra roupagem.

O medo camuflado aflorou o instinto de sobrevivência. A loba deslizou para fora. Lobos sabem como e de que forma sobreviver.

Uivei. Escutei uivos. Não estava só!

Despida de mim e dos outros sai da caverna. Astuta, aprendi. O que, como e com quem. Caçar, ocultar, se proteger dos perigos do tempo e da morte sombria.

Como vela insistente em dias de vento o sentimento do gerar reacendeu-se. .

Me peguei dançando sozinha. Cantando! Lençóis macios e sedosos tocaram o corpo nu. Ousei !

Nas diferentes trilhas, engravidei de diferentes sonhos. Sonhos pintados, contados, poemados, dançados, amados.

O espelho reflete a mulher. No corpo um novo contorno. No olho o reflexo da loba. Inquieta, esperta, poderosa, impaciente.

A loba segue suas trilhas e reflete a mulher desregrada que habita em mim.
 

maria izabel