Revendo conceitos

Evidente que ser madrinha do casamento da Paula, sobrinha por parte de marido, deixou-me feliz. Mas o que me encantou, foi à simplicidade como resolveram assuntos de cerimônia e festa.

Afinal, o convite elaborado por eles, trazia os seguintes dizeres, impressos pelo computador:

“Após anos de pressão familiar, insistentes pedidos de amigos, finalmente vamos nos casar... Contamos com a sua presença e pedimos que não nos mande presentes, mas após a cerimônia que será realizada na capela de Sant’Anna às 12:30h. pretendemos almoçar no Restaurante Chácara Souza, onde família e amigos se reunirão e cada um assumirá sua despesa.”

“Sua presença será um presente para nós!”

Tudo tão prático hoje em dia...

Apenas quando comecei a pensar em que roupa usar me dei conta, que ser madrinha no horário do almoço, passa bem longe do pretinho, seja ele de festa ou básico.

O verão deste ano, em São Paulo, estava se despedindo, mas ainda dava pra encarar uma roupa leve. Até que ponto? As opções nas vitrines ou eram despojadas demais ou de menos. E eu não sabia qual a roupa certa.

Só que este casamento estava quebrando regras, vestindo-se diferentemente. Sem dúvida, eu poderia seguir o mesmo preceito. Mas, o que usar?

Com que, então, consultei uma amiga, de vida social intensa. Só não sabia que ela estava em uma fase Feng-Shui e preocupada com o trabalho que vinha fazendo:

- Sabe, disse-me ela, funciona assim. Se quiser atenção de todos na reunião, vou de vermelho. Torno-me o centro e consigo que todos escutem e se interessem pelo que tenho a dizer. Se, pelo contrário, quero apenas escutar, anotar as conversas para um futuro, vou de preto. Passo despercebida... É batata!

Bem, não queria ser batata, mas não me via de vermelho, no altar como a grande atração.

Outra amiga consultada, esta numa fase de fluoxetina. E me disse:

- A roupa certa é aquela que te deixa nua, sem nada, tão à vontade que se esquece de tudo.

- Jeans... Perguntei?

- Pode ser. Se gostar compre um conjunto e vá em frente. A não ser que seja adepta do sadomasoquismo. Se for, encare o mesmo conjunto em couro. Bem sensual. Que acha?

Não sei. E já me via algemada, presa às paredes da capela. Credo!

Então, lembrei-me de ter lido a algum tempo, que Omar Sharif costumava dizer que mulheres acima de cinqüenta anos, meu caso, deveriam vestir-se apenas de burka. Única vestimenta que as tornava toleráveis.

Como sempre o vi como um velho, considerá-lo gagá foi fácil e esqueci o comentário durante algum tempo.

Mas voltei a lembrar, quando pelas lojas do shopping, todas as roupas que me chamaram atenção, pediam que eu tivesse muitos anos a menos. Algumas roupas tão justas, que ao colocar, sentia-me como se tivesse sido vestida a vácuo. Optei por um longo, destes que a gente vê a mulherada usar até nas ruas, mas em um tecido mais elegante. Separei vários e acabei ficando com dois que me pareceram perfeitos. Muito além das burkas.

A única imperfeição eram as alcinhas. Percebendo minha hesitação a vendedora foi enfática:

- Experimente, vai ficar ótimo. É verão, está quente, principalmente neste horário.

E lá fui eu, frente ao espelho, provar os vestidos. Mas a história da burka não me saia da cabeça e assim, aquelas alças não delineavam, evidenciavam braços carnudos, a pele não contrastava ao tom do tecido, mostrava, de forma gritante, as manchas do colo. Maldito Sharif com olhos de gueixa!... Só me fazia querer outros modelos, de ombros e braços bem cobertos. Voltei para casa sem ter me resolvido.

Mais tarde, acalmada, abri armários. Cabide por cabide. Gaveta por gaveta. Sabia o que queria. Um vestido antigo, parecido com os usados hoje. De seda delicada, bege e marrom. Pequeno decote, comprimento bom. Braços de fora. Talvez pelo uso, por conhecê-lo, meus braços não se evidenciavam tanto nas alcinhas estreitas. O colo se destacava no decote e o comprimento perfeito.

Mostrei-me para o espelho. Sorri.

Não sei da roupa certa, mas acertei. Aliás, acertamos. Amparada por seu antigo conhecimento do meu corpo, me fiz sorrir na igreja. No restaurante 120 pessoas compareceram como presente aos noivos. Quase todas as roupas marcaram presença. As que conhecem a moda, as feng-shuy, as fluoxetinas, até sados. Só não encontrei a opção do Omar Sharif. Acho que as mulheres com mais de 50 desistiram de se preocupar com isso e foram para a festa dançar.
 

maria izabel