Seguindo em frente


Todos o chamavam de gordo. Eu, de Roberto. Ele gostava de brincar comigo.Eu com ele. Corríamos pelos quintais, pela rua. Arreliávamos a cabritinha que a vizinha criava, até ela correr atrás de nós pra dar cabeçadas.

Ele bom aluno. Eu boa aluna também. Adolescentes, continuamos amigos. Freqüentávamos festas, grupos de conversa, igreja. Gostávamos do mesmo tipo de música e ríamos juntos. Nenhum interesse diferente de amizade. Embora todos duvidassem.

No cursinho, junto, discutíamos filosofia e história. Grande paixão das nossas vidas. Eu trabalhava o dia todo. Ele estudava. Me ajudava com anotações e coisas assim.

Vestibular não deu outra Juninho USP, eu PUC.

Tristeza!

No começo, nos falávamos sempre. De vez em quando. De quando em vez. Até nos afastarmos.

Ele tinha carro e estudava de dia. Eu trabalhava o dia todo e ia de ônibus para a escola. Um ou outro conhecido dava e levava notícias.

- O gordo é um cara muito estranho. Nem preciso te falar isso.

- Que há pra ser sabido?

- Se você não sabe, não sou eu quem vai contar.

- Acho bom mesmo, dizia fechando a cara.

Faculdade terminada. Nos encontramos um dia no centro da cidade. Me senti agarrada e levantada do chão. Era ele. Feliz por me ver, esquivo ao falar.

- Ta namorando é? Perguntei enquanto o pegava pelo braço e intimava a tomar café comigo.

Ficou vermelho.

- Não, quer dizer – fui convidado pra trabalhar no Rio .

- Que delícia!

- Aluguei um pequeno apartamento por lá. Estou aqui só providenciando algumas coisas.

- Ia embora sem me contar?

Mudou de assunto. Não fez nenhum convite, não passou o telefone.

Nos despedimos em meio a um mar de gente. Mal escutei o adeus.

Quanto tempo se passou?

Muito, muito mesmo.

Um dia á porta da pré-escola esperando minha filha o vejo encostado ao portão.

- Ro?

- Bel?

- Tentei abraçá-lo.Ele me evitou.

- Tem filhos aqui?

- Não, continuo no Rio. Vim pegar meu sobrinho.

- Ah, lá vem ele. Bom te reencontrar.

Fiquei plantada ali, vendo-o se afastar. Pareceu-me cansado. Doente.

Alguns dias depois encontrei a cunhada dele. Reconheci pelo menino.

- Oi sou bel, amiga do Roberto. Tudo bem?

- Oi, tudo sim.

- Está tudo bem com ele?

- Mais ou menos. Foi internado ontem. Parece que estava tomando um tal de AZT e não se deu muito bem.

- Sei.

Em casa curiosa, sai atrás do que poderia ser o tal AZT. O ano era 1990. Pouco ou quase nada se falava sobre AIDS.

Passei dias tentando localizar um telefone, um endereço. Queria encontrar de novo o caminho pra correr ao encontro dele. Queria o endereço das nossas risadas pra poder presenteá-lo. Queria falar de filósofos e história, só pra ter o prazer de ver a história dele encaixada num tempo sem filosofias.

Ele nunca permitiu que ninguém estivesse com ele. Nunca mais abraços espontâneos, beijos gostosos de boa amizade.

Foi embora como sempre viveu, responsável. Até demais pro meu gosto.

Seu irmão me procurou tempos depois:

- Sabe, ele gostava muito de você. Mas nem pra nós contou que era viado.

Olhei-o com ódio profundo. Virei as costas e fui embora. As definições de macho para mim não continham aquele homem com o qual falava. Mas cabia aquele de quem se falava.

Sinto falta dele.

Escuto suas risadas e sinto suas mãos me puxando. Tentando me ajudar a escapar das cabeçadas dos super-humanos.

 

maria izabel