Solange

Tinha um nome, Solange. Lentamente passava frente à minha casa todos os dias bem cedo, pela manhã e no final da tarde.
Sempre só!
O que eu fazia na rua ou na janela nestes horários?
Não me recordo exatamente, devia ter uns seis ou sete anos de idade.
Importante é que ela chamava minha atenção.E hoje sei que não era apenas pela roupa elegante, embora sem cor, o que me faz pensar nela sempre de cinza, mas havia uma distância no seu olhar, quase uma ausência.
Cabeça erguida, ombros retos, como que buscando nos gestos uma dignidade perdida. Magra, alta, cabelos pretos, algumas vezes vinha de óculos escuros e nesses dias os ombros estavam descaídos e havia sempre umas manchas roxas pelas mãos, pernas ou braços.
Eu olhava essas marcas na pele muito clara e me lembrava das berinjelas
plantadas no quintal de casa.
Lágrimas?
Nunca vi, em casa o assunto era evitado frente às crianças. Apenas uma vez minha mãe comentou com meu pai:
- Aquele brutamontes do marido da Solange precisa encontrar alguém do seu tamanho pela frente.
Como seria um brutamontes?
Durante dias imaginei dois grandes gênios do mal, dois grandes bruxos correndo pela rua atrás daquela princesa triste e cinza.
Ninguém da vizinhança os visitava ou tinha com eles conversas.
Mas, de tanto passar por mim, nossos olhos acabaram se cruzando. A um bom dia tímido, outros bons e boas se seguiram. Eu sorria para ela, e imaginava que escrevesse daquelas poesias que minha mãe gostava de ler, ou, que teria uma família rica procurando desesperadamente por ela, esperando que voltasse.
Uma tarde me aproximei timidamente e cortei seu caminho:
- Quer uma bala?
Solange me olhou longamente, aceitou a bala, dobrou o pequeno papel adocicado, tornou a dobrar, redobrou até formar um pequeno pássaro, passou a mão em meu rosto, entregou o mimo, deu um sorriso e continuou seu caminho.
Daquele dia em diante, eu sempre a esperava, pra mostrar a boneca chamada soninha, que tivera a perna remendada, o desenho feito com um pedaço de carvão no canto da calçada, um vaga-lume dentro de um vidro.
Eram poucos minutos, mas eu gostava e o olhar dela sorria.
Até que um dia a esperei pra mostrar o joelho todo ralado e os braços cheios de arranhões.
- Que foi isso meu bem?
- Um moleque lá da escola pegou minha boneca, corri atrás dele.
- Ele bateu em você?
- Veio bater, mas gritei tão alto tão alto que ele assustou, ai corri atrás dele, puxei com força minha boneca de volta.
- Que menina corajosa!
Envergonhada, respondi baixinho.
- Não conta pra ninguém?
- Jura?
- Juro.
- Jura por Deus?
Sorrindo, levou os dedos em cruz até os lábios.
- Eu tive medo, muito medo, mas não queria que ele deixasse na
Soninha essas marcas ai, e lhe apontei o rosto.
Solange afastou os dedos dos lábios, afagou meu cabelo, a carinha da boneca, passou a mão em seu próprio rosto e me sorriu.
Foi a última vez que a vi.
Dois dias depois uma confusão muito grande na minha rua, com o carro de poliícia chegando barulhento. Minha mãe me fez entrar. Na hora do jantar
como eu não parasse de perguntar o que havia acontecido minha mãe disse:
- A moça Solange armou uma gritaria muito grande com o marido, os vizinhos deram parte, ele foi levado pra delegacia e ela precisou ir até o hospital.
- Ela vai morrer mãe? Perguntei passando as costas da mão pra limpar as lágrimas que já escorriam.
- Não filha, não vai.
Lembro-me de ter passado dias no portão olhando pra ver se ela voltava.
Semana depois encontrei em minha varanda vários pássaros feitos de papel de bala colorido, e junto deles um bilhete que mamãe leu para mim.
- Querida menina, estou voltando para a casa de meus pais. Cuide bem de sua boneca e grite sempre que precisar ou se sentir assustada.

Beijos
Solange
 

 

maria izabel