Tempo fora de tempo

Pão. Francês. Em casa é a grande preferência, a despeito de todos os outros. Os recheados, de forma, de regime ou de engorda. Pão é o francês! Assim toda tarde passo pela padaria. Aliás o que não falta em meu bairro são padarias. Pequenas e grandes, mas todas maravilhosas. Claro que a maioria já perdeu o “ar de boteco”. Mesinhas espalhadas sempre repletas dos adeptos de um bom café, ou de um sanduíche incrementado servem como ponto de encontro. Nos domingos pela manhã é passagem obrigatória na volta das baladas e onde pais separados tomam café com seus filhos quinzenais. Nas vitrines e prateleiras verdadeiro delírio - tortas, bolos, queijos e pães de todo tipo. Até os tais doces de padaria já se pode dizer que não são. Perfeitos!

Então, naquela tarde ensolarada de final de setembro entrei pra pegar meu pão e o natal me abraçou. Com força. Bem que tentei fugir, mas das prateleiras montes de panetones, de todos os recheios invadiram meu olhar, meu olfato e atiçaram meu paladar. E não eram os de fabricação própria não. Mas aqueles de marcas variadas e que só se apresentam em certa época do ano.

Natal? Já!?

Como pode ser isso? O ano ainda nem se cumpriu- Deus meu! Não vi os filmes do Oscar. Nenhum deles. Sempre ocupada. Não completei metade do que planejei de trabalho. E olha que trabalho muito. Sem contar que Norma minha amiga querida teve um enfarte faz três meses. Falo com ela ao telefone todos os dias. E ainda não sobrou tempo pra ir visitá-la. Também, ela não mora no mesmo bairro que eu.

Mas o ano não pode ir se acabando assim. Apenas existi, nenhum grande acontecimento. Se o ano acabar vai confirmar que não te vejo há muito tempo. Até agora nenhuma grande emoção que justificasse o final deste ano. Talvez seja bom para quem aniversaria nos próximos meses. O natal se adiantando tanto, vai chegar antes de outubro e novembro e não vai dar tempo de se aniversariar, envelhecer...

Enquanto olho meio abobada tudo aquilo, uma moça chega e pegando um dos panetones na mão comenta alegremente:

- Que delícia, adoro essa época do ano. Não é bom?

Indignada, desviei o olhar.

Só falta agora às ruas começarem a se enfeitar. As lojas a colocarem nas calçadas seus magrelos papais noéis com aquele sininho dourado e barba de algodão. E as pessoas feito um rio incontido desaguarem pelas ruas atrás de lembrancinhas. Sem falar nas bolas e árvores, e as pessoas se cruzando com as mãos lotadas de pacotes, lotadas de boas intenções, lotadas de sacolinhas para os pobres do final do ano.

E a ceia, o que será? Como sempre ela acontece na minha casa. O que vou fazer? O eterno peru que rola a semana toda e acaba indo pro freezer?

Mas a moça nem percebe. Feliz na sua indiferença pega o panetone e se dirige ao caixa. Como é bom poder estar alheio, seguir o curso da vida indiferente aos acontecimentos. Bem que tive idéias de não desarmar a árvore. Simplesmente guardar atrás do sofá. Quem sabe passasse despercebida e assim eu não me indisporia com os reis.

Não o fiz e agora, toca procurar pelas caixas, tirar pó armar tudo de novo.

Pensamentos. Apenas!

Mas chegar assim, com esses panetones enfeitados de flores vermelhas e verdes e lacinhos dourados. E eu com tão pouca disponibilidade. Com tanto trabalho por fazer.

É demais. Também é demais essa fila de gente pra comprar pão, bolos, tomar café, sem reparar que já nos invade o natal. Que diminui nosso ano.Por hoje desisto do pão e não levo o panetone. Quem sabe assim a vida continue na normalidade.

Sem jeito saio desta padaria. Vou comprar meu pão em algum lugar onde ainda seja primavera. Afinal, as árvores estão se cobrindo de flor, colorindo as calçadas. Setembro nem cumpriu seu papel. E já quer se fazer o natal?

 

maria izabel