Temporais

- Mãe...ta linnda!

Enquanto fecho o zíper do meu melhor vestido, sou observada por minha filha.

- Tou?

A cabeça confirma.

Sorrio.

Quem sabe um outro vestido, claro, igual o que vi naquela vitrine, me caísse muito bem... Não, filhos pequenos, não permitem certos luxos.

Mas, o lingerie de renda é novo, bonito, muito sensual.

Estou bem?

Meia volta frente ao espelho grande do quarto. Gosto do que vejo!

Quando Flávio me convidou pra sair, aceitei imediatamente, ele é meu colega de profissão, nos conhecemos desde que vim para SP, isto já faz quatro anos, nos últimos meses muitos olhares, confidências e algumas saídas para almoçar.

Só que hoje o convite é para jantar, dançar, esticar...

Lentamente, ajeito o cabelo e capricho no perfume, minha alma cigana exige uns brincos grandes e dourados, uns saltos altos, uma boca vermelha, chamativa.

Pronto! Me gosto assim.

Mãe, ta caindo uma chuvona daquelas!

-É?

Chuva caindo, filha na janela, Flávio se insinuando em minha vida, sorrio.Todas as terras secas precisam de chuva, ela cai forte lá fora e delicada dentro de mim.

Quando cheguei em SP, há quatro anos, sabia que era uma cidade dura, forte, vim para tentar salvar, se é que alguém consegue, meu casamento e estou separada há três, de saldo positivo uma filha pequena, de oito anos.

E nessa cidade que mal conheço, sem meus familiares e amigos vou sobrevivendo, na verdade tentando, porque Sérgio meu ex-marido, fala muito, faz pouco, sempre me deixou só.

Também hoje, não vou reclamar dele, não quero me irritar.

A chuva fica cada vez mais forte.

Da sala minha filha atende o telefone e grita:

- Mãeeeeeeee, papai diz que ta chovendo muito, a rua encheu.

Corro para o telefone, Sérgio explica que o bairro em que ele mora, está ilhado, caíram árvores e ele não tem como sair de casa.

- Por que não veio mais cedo?

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- Não, não, o combinado era antes das 6h.

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- Tá.

Que vontade de mandá-lo a merda, mas, a única coisa que consigo fazer é segurar as lágrimas e bater o telefone.

O temporal desaba dentro de mim, com raios e trovões, a água eu represo.

Mary olha, eu não disfarço a raiva.

- O papai não virá?

- Não, está chovendo muito forte.

- Ta brava mãe?

- Não com você, já vai passar.

- Então você lê historinhas depois da janta?

Vizinhos, vizinhos, alguém que eu conheça?

Não, mudei-me apenas há seis meses para cá, não conheço praticamente ninguém, saio cedo, chego tarde.

Desanimada ligo desmarcando o compromisso.

- Não, adoraria sair com você.

- Claro que não é desculpa.

- Isso, a gente marca outro dia.

- Não, aqui está chovendo forte, é,começou agora.

- Certo, beijos.

Pronto, finito! Sim, esse entusiasmo também tem a ver com minhas carências, de conversa, de carinho, de sexo, de desvios na rotina.

Que acontece comigo?

Tanto tempo represada, a água do meu temporal escorre, vou para o quarto tiro o vestido, liberto os seios, me enfio numa camisetona velha, folgada que me serve de pijama, da alma cigana restam os brincos e o batom.

E, fantasiada de mãe, invento um jantar, invento histórias, invento o criar, invento um espaço de paz e calma, quente e aconchegante pra receber os sonhos de quem agora vai deitar.

Desabo no sofá fantasiada de mulher temporal

Lentamente, controle remoto na mão, canal por canal, nada interessa. Se minha vida tivesse essa opção remota de controle, nas minhas mãos, mudaria. Nada de filmes sem música, cores ou romance. Não a vidas desasadas. Todas as vidas teriam asas próprias para voar. Todos os romances dariam frio na barriga. Todos os sexos seriam bons. Solitário, só quem assim o quisesse.

Acordo com o barulho do meu celular, tv ainda ligada, olho o relógio 1:30 da manhã...Sonada, não encontro à bolsa. O telefone para. O barulho da chuva continua forte.

Atrás do sofá a bolsa, o telefone recomeça.

- Alô!

Flávio... me pede que olhe pela janela da sala.

Com a ponta da camiseta, limpo o vidro embaçado e, do outro lado da rua vejo um homem completamente molhado, numa das mãos o celular, na outra uma garrafa que suponho de vinho.

Enquanto observo, a voz no meu ouvido diz:

- Posso subir?

maria izabel