Uma aula pra toda vida

Mary, minha filha, chegou da escola como sempre, um furacão, atirou a mochila ao chão e disparou ainda na porta da cozinha:

- Mãe, eu sou filha de quem?

Nem me virei. Da pia onde preparava a salada para o almoço respondi:

- Pelo que me consta, do teu pai!

- Ah, isso é que não mesmo. Hoje na aula de biologia a professora estava falando sobre genética e tipo sanguíneo. Ela disse que a única impossibilidade de combinação é um homem tipo O e uma mulher tipo AB, gerar um filho AB, que é o nosso caso.

Sentadas para almoçar disparei também:

- Melhor tua professora se atualizar, pois eu sou AB, teu pai O e você AB, como eu. E tenho certeza absoluta de quem você é filha.

- Que coisa mais indigesta pra hora do almoço!

Esqueci o assunto, ela não. Quando o pai chegou à noite, estava esperando na porta do elevador.

- Você sabe que eu não sou sua filha?

O pai brincalhão retrucou:

- Que nada, os vizinhos eram muito mais feios do que eu. Não tem perigo.

- Feio é? Hoje na aula...

Pronto! A mesma conversa. O pai escutou e disse a ela:

- Concordo com sua mãe, sua professora pode estar equivocada.

Rimos e para nós assunto encerrado.

Encerrado? Pois sim. Dia seguinte lá vem:

- Mãe, a Joana (professora de biologia), diz que não se enganou e que não esta desatualizada não. O marido dela é médico, ela conversou com ele e...

Com menos paciência que no dia anterior já interrompi o assunto:

- Ótimo, seremos caso de estudo da genética então. Contrariamos a regra.

- Ah mãe, conte a verdade vai, sou filha de quem?

A história começava a me incomodar, imaginava as outras crianças contando em casa, a cara da professora de biologia e não estava a fim de ter minha vida exposta dessa forma.

Mas, gostando, ou não, essa conversa se repetiu dia sim, outro também, dia sim, outro não. Até que uma tarde, assistindo uma reportagem na TV, quase morri de susto.

Falava sobre um rapaz de 23 anos que refez o teste de tipo sanguíneo como exigência para conseguir um emprego. O teste deu diferente do que ele tinha anteriormente, fez DNA e descobriu que foi trocado na maternidade.

As cenas se sucederam, a mãe desesperada. Queria conhecer também o seu verdadeiro filho. O filho, que se descobriu não filho, também desesperado. Não queria novos pais. E queria saber de quem era filho.

Liguei pro meu médico. Ele foi categórico:

- Realmente não pode ser, ela tem toda razão.

- Como? Desmoronei. Por favor não comente nada, preciso pensar, ela tem doze anos e eu não sei o que fazer.

- Calma, refaçam os testes, vocês três.

Calma, ele me pedia calma? Eu estava me sentindo, sem norte/sem sul, sem direção...

A voz dele continuava vindo de muito longe - Se confirmar, a gente vê quais as providências legais neste caso, talvez um DNA.

Legais? DNA? O que ele estava pensando.Ilegais isso sim. Ninguém tocaria em minha filha. E se ela não fosse minha filha? Onde estaria a outra menina? Eu iria querer as duas comigo.

Estava fora de mim.

Liguei pro meu marido. Conversamos. Procuramos detalhes do dia de nascimento dela. Lembramos que na ala da maternidade em que fiquei, naquele dia só tinham nascido duas meninas.

Nos dissemos que não poderia ter acontecido algo assim, mas desliguei com a sensação de que um tentava consolar o outro.

Naquela noite meu marido chegou mais cedo com aparência de amarrotado:

- Bel eu decidi, não quero que seja feito nada. Acho que não há erro na nossa tipagem. Eu e você já passamos por muitas coisas. O da Mary foi feito em um bom hospital, e ela passou por duas cirurgias. Pode avisar ao médico que queremos sigilo absoluto e que se ele fizer qualquer coisa, processo ele.

Assim, por três meses amargamos essa incerteza. Tínhamos medo até de falar sobre isso. Esse acontecimento balançou minha estrutura tão organizada de vida. Percebi que muitas vezes os alicerces são firmes, mas, basta um pequeno empurrão, e pronto, tudo desmorona.

Só que fui ficando triste, aborrecida, calada. Meu marido cada vez mais amargurado Ele não dizia, mas percebia que já começava a questionar se seria mesmo o pai.

Passei a observar minha filha. Procurava nela aquilo que dizia o poeta “de tudo fica um pouco”, nossos traços ou os das nossas famílias. Alguns dias enxergava claramente. O cabelo do pai, os olhos da avó, Em outros dias, nada via, “nem um pouco do meu queixo no queixo da minha filha”.

Foi então que resolvi enfrentar o que quer que fosse. Refiz o exame. Confirmado. AB positivo.

Meu marido também, O positivo.

Mais uma semana pra adquirir coragem e levei Mary pra refazer.

Durante o dia todo monitorei a Internet. Precisava retirar o exame antes de qualquer um.

Se confirmasse o da Mary, eu não sei o que faria...mas faria.

No final da tarde fim do pesadelo. Tipo sanguíneo B positivo.

Calada, em silencio, agradeci, a todos os anjos e santos de plantão. E foi a primeira vez que chorei muito e de alívio. Afinal, posso declarar ela é realmente minha filha.
 

maria izabel