Velhas histórias

Por acaso era domingo à noite. E por acaso a tarefa do curso sobre educação de jovens e adultos que eu tinha recebido na quinta e que deveria ser entregue na segunda pela manhã não era nem esboço ainda.

- Deus do céu! Pensei em voz alta. Não tenho memórias. Não me lembro de absolutamente nada.

Olhei novamente a proposta escrita com letra bem redondinha, letra de quem não sabe o que vai dizer e então se demora no traçado tentando ganhar tempo.

Reli, pausei a lapiseira sobre a linha e nada. Nada mesmo.

Sandra tinha sido enfática:

- Pessoal vocês devem estar acompanhando pelos jornais e revistas as reportagens e debates sobre as mudanças no ensino fundamental, mas especificamente sobre alfabetização. Sendo assim gostaria que todos escrevessem suas memórias de aprendizagem, procurem focar também o primeiro ano de vida escolar de vocês. Não deixem de fazer, pois o debate da semana vai ser sobre as mudanças e pretendo ter como abertura as colocações que vocês trouxerem.

Liguei para minhas irmãs:

- Lembra-se de quando fui pra escola?

- Claro que sim, você tinha sete anos.

- Sei, mas lembra se eu já sabia ler e escrever?

- Você sempre foi espertinha, acho que sabia.

Uma outra irmã foi mais enfática.

- Não você não sabia nada não, só queria brincar.

Arre, que difícil! Enquanto olhava a folha tentava ler dentro de mim.

Então fui reconhecendo a estrada de terra. O calor, o cheiro de pó e de mato. E me vi ali, junto ao meu irmão. No caminho. Em meu primeiro dia de aula. A escola daquele tempo ficava no interior de São Paulo, em uma região conhecida como Alta Paulista. Não me lembro de medos, alegrias, sustos ou noites mal dormidas. Como os meus outros cinco irmãos, completei sete anos. Então era hora de ir pra escola. E fui.

Não sei como, mas sabia que a moça loira, bonita, da casa frente à minha e de nome Conceição seria minha primeira professora. Também não me lembro de sua boniteza loirice em sala de aula. Cheguei, esperando que alguém me abraçasse, tomasse minha mão e me dissesse o que fazer. De tal modo esperava isso que a partir daquele instante aprendi a observar. Memórias. Talvez a única marcante, seja do prédio escolar. Grande, com muitas janelas envidraçadas por onde se via o jardim cheio de árvores. Árvores grandes, antigas! Eu tão pequena. Alguns degraus levavam pra dentro do prédio. Assim ao atravessar a porta principal, semi-aberta o visitante via a direita uma pequena recepção e do lado esquerdo o pátio interno, coberto, amplo. Neste pátio dois destaques, um palco para as festas, onde recitei algumas vezes poesias decoradas sem nenhum problema e a cozinha que servia lanche para as crianças da “caixa escolar” e para as que podiam pagar. Nunca fiz parte de nenhum dos dois grupos.

Em seqüência ao pátio coberto, um descoberto, onde brincávamos de pega-pega. Um senhor, pequeno, magro, de nome Rodolfo, circulava entre nós com um pequeno sino na mão. Quando batia o sino, corríamos todos. Em silêncio. Pra formar filas. Cantávamos o Hino Nacional e calados entravamos nas classes.

As classes, todas elas, eram feitas de silêncios! Muito tempo passou. A escola deste tempo fica na zona oeste da cidade de SP. Reciclagem. Com todos os olhares voltados para o tema alfabetização, ninguém pode deixar passar qualquer oportunidade de reciclar ou aprender. Minha meta de atuação são adultos analfabetos. Chego à escola antes das oito, fichário, lapiseira, canetas, bagagem de leitura, de cursos, de sala de aula.

Desconhecer os demais participantes é um desafio gostoso. A professora japonesa, pequenina, de fala doce e sorriso bom serve de garantia inicial ao curso.

Observo minhas colegas, quinze mulheres. De longe sou a mais velha. De longe a menos titulada. Nada de abraços, mas a conversa é entremeada de risos e de acolhimento. Algumas exageram nos detalhes, outras no excesso de zelo.

Experiente, Sandra sorri, utiliza todo e qualquer motivo pra introduzir novas idéias. Provoca. Lê história, faz circular livros pra atiçar curiosidades, fala sobre como o processo de alfabetização ocorre dentro do sujeito. E lentamente o grupo se integra. Alguns meses depois os abraços acontecem.

As classes agora são feitas de palavras...

Mas um primeiro dia de aula, dez anos atrás. Como voluntária em alfabetização de adultos, consigo um trabalho a noite na escola do bairro. Chego cedo, afivelo na blusa o crachá com meu nome enquanto reviso os dos alunos. Aguardo.

Aos poucos, vão chegando. Sorrio cumprimento. A classe está preparada. Por todo lado livros, jornais, revistas. Alfabeto pendurado em grossos barbantes pelas paredes da sala de aula. Assustada, mas aparentando segurança puxo conversa.

Cleonice me conta:

- Vim porque minha filha mandou, mas eu nem sei por que estou aqui. Criei ela, formei ela, comprei minha casa, nunca precisei da leitura.

Raimunda acrescenta:

- O médico disse que tenho depressão e o pessoal lá da igreja falou pra eu vir pra escola.

Outros vieram pra ler a bíblia, pra escrever carta pra família. Observo.

Mas a menina que mal se lembra do primeiro dia de aula vem em meu socorro e olhando a letra inicial do alfabeto, saio da minha posição e sem ter lembranças nenhuma abraço a todos.

Aos poucos, timidamente, os cadernos começam a sair das sacolas e eu começo também a deixar de lado o meu analfabetismo e vou aprendendo a ensinar.

Esta classe agora é feita de abraços... Paro de escrever e relaxo. Acometida de estranha saudade deixo a segunda feira entrar, pelo meu silêncio, minhas palavras, meus abraços...

maria izabel