Vizinhos


No tempo em que eu era menina elas cumpriam bem suas obrigações. Sim, obrigações. Dentro e fora de casa. Porque iam também pra fora de casa. Desinibidas! Não tinham vergonha de pedir. Isso, quando os tempos eram outros tempos e sobrava tempo pra se conversar. Estavam em todas as casas. Podiam ser clássicas, simples, de porcelana, louça ou esmalte. Possuir diferentes cores, padrões, motivos Algumas se apresentavam até lascadas.

Quando utilizadas desinibidamente nas portas, em seguida um cheiro gostoso, geralmente açucarado, saia pelas janelas, ganhava portões, assanhando a meninada que brincava na rua.

O agradecimento, além das palavras, seguia embrulhado em guardanapos branquinhos ou panos de prato. E mais tarde invariavelmente, ia a receita.

Assim aconteciam as coisas quando se usava a xícara, não apenas pra tomar café ou como medida.

Elas cumpriam uma outra função – a de pedir emprestado - o açúcar, a farinha os ovos. Não importava qual fosse o pedido, elas eram as fiéis depositárias. Quem as levava de porta em porta? As crianças! O que reforça a imagem. Imagem de singeleza que esse ato, antigo hábito tinha.

Mas isso foi bem antes de voltarem recatadas - pra dentro de casa. Naqueles tempos os vizinhos se conheciam. Não tinham o menor pudor nisso. Se falavam abertamente e desconfiavam de quem não gostava de conversas:

- A nova vizinha é muito metida.

- Também achei, não fala com ninguém, diz que detesta isso de vizinhanças...

- Hum...já dizia minha avó : - Deixa estar jacaré a lagoa há de secar...

- Soube que Dona Albertina está muito mal?

- Não me diga, que ela tem?

- Não sei direito, mas parece que...

- E a Clara heim?

- Me contaram, mas eu sempre disse que isso ia acabar acontecendo, afinal...



Sim, falava-se da saúde, da doença, e se fazia fofoca. A imagem de alguém debruçado na janela, ou espiando atrás da cortina era comum.

Comum também era o fato das crianças brincarem nas ruas sob os olhos de qualquer pessoa que estivesse por ali. Todos se sentiam um pouco donos de todos - responsáveis por todos.

Mas, dizem que a tal da fofoca foi quem começou a recolher as xícaras.

Depois a televisão. Não se precisava mais ir à rua pra saber da vida alheia, (pelo menos dos chamados artistas ou evidentes). E as crianças não precisavam mais de companhia pra brincar.

O crescimento das cidades acabou dando o golpe final – trouxe entre outras coisas a violência.

Perdemos as xícaras nas ruas e também os vizinhos. O politicamente correto agora é:

- Moro neste prédio há anos e não conheço ninguém, quando muito cumprimento um ou outro no elevador.

- Eu também, não conheço vizinho nenhum.

Uns poucos iniciados, como de antiga seita, se visitam e sentam-se à mesa.É o momento de glória dessas pequenas peças, quando podem sair das prateleiras e cumprir o seu papel de tornar a amizade mais aquecida.

Não saíram mais as ruas. Estão recatadas. Enquanto vamos colocando grades circuitos internos de TV, cães pra defender nossos espaços, penso nelas.... e sinto saudades.

Será que algum dia voltam?
 

maria izabel