De meninos e de ventos

Houve um inverno à meio do outono. Então a meio do inverno o outono voltou.
Tempo confuso, que se fez de vento.
Estranho e silencioso balé sacode as ruas. Folhas dançam - “tapetam” a cidade.
A florada roxa do ipê colabora.
Também nas esquinas o gari dança. Estranha dança! Vassoura em punho, um emprego temporário em mãos, tenta inutilmente juntar... folhas. O homem se chateia, as pessoas se irritam com a “sujeira”.

O farol abre. Folhas escorrem pelos vidros, pelas sarjetas. Sobem em redemoinhos.

Fez-se também um tempo de meninos e pipas. Sobre as lajes, nas coberturas, no quintal da rua. Olhar perdido no infinito. Artesãos compenetrados no vento. Papel de seda, varetinhas de madeira - Mãos sujas de cola e papel. Engenheiros de vôo. Um carretel de linha dez sustenta este céu de meninos, que livres no vento correm pelo meio fio. Pulam muros, sobem telhados, quebram telhas, aborrecem as pessoas.
Mas o que importa? Apenas a liberdade, a cor, o riso, o cortar, aparar.
O menino espreita. Quebra cacos de vidro e mistura cola. A pipa enfrenta o vento ganha o céu. Ganha pipas.

Outros meninos também se agitam. Correm por outro meio fio. No metrô, no transito, vejo suas caras cansadas. Exaustas. O tempo do vento passou. Qual linha os sustenta agora?

Na esquina o gari continua..Ele ignora as pessoas e o cansaço. O tempo do vento se faz presente. Disfarçadamente junta as folhas e atira pelo bueiro. Um pedestre observa e reclama:

- Ô meu não pode fazer isso não. Quando vier a chuva...

O gari se faz de desentendido. O pedestre dá de ombros. Sozinho com sua lida, o trabalhador assobia, quase satisfeito. É hora de se cansar. No ônibus lotado segue empilhado, como as folhas na rua.

Mas já é noite, e de volta pra casa todos os passos se apressam. Os homens se perdem no tempo. E os meninos reaparecem no vento...
 

maria izabel

 



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