Incompletude

Estava escuro quando Estela estacionou o carro na garagem da academia. Então, e só então percebeu a besteira de ter saído sem o casaco de capuz. Que saco!

Puxou o zíper até em cima, levantou a gola e correndo fez o restante do percurso até a porta principal. Um calor gostoso a recebeu. Neste horário, antes das seis da manhã tudo é mais tranqüilo. A música é suportável, o número de freqüentadores também. Significa esteiras disponíveis. Então a vontade de ficar na cama aflorou. O conforto das cobertas, o escuro do quarto, os olhos fechados que não obriga a nenhuma reação. Só existir.

Mas foi o pensar que a empurrou pra fora da cama, do quarto, da casa.

Sentia falta dele, muita falta.

Tanto tempo passado, tantas emoções sentidas, socorridas, resgatadas. Mas a vontade dele, sempre voltava. Tal qual feitiço, tal qual fantasma.

Outras pessoas chegam. Alguém liga a TV. Estela pensa neste seu paralelo e recria a imagem dele entrando pelos corredores de sua vida. Com aquele jeito gingado, metido mesmo. Liga a esteira, corre, transpira, respira. Sente frio apesar de tudo.

Que saco! Que besteira sair sem o casaco de capuz.
 

maria izabel

 



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