Para voar

 

Gaveta entreaberta.
Papéis de seda, leves, coloridos. A tesoura recorta e arredonda
formas para em seguida rasgar, envergonhada.
Mas o desejo fica. Lobo inquieto.
Ante a finura da seda, novamente - desejo e imaginação.
Formas completas?
Sim.
Um par de asas, lindas!
Algo meu, espaço clareado, ensaio o voar.
Cores na penumbra?
Ninguém acreditaria! Não há com quem falar.
Quando a ânsia cresceu, tintei. As mãos se juntaram aos olhos,
separei as cores e criei, me embriaguei.
E, estando tudo em mim uma pequena fresta se abriu.
Ousei!
Olho faminto, mãos desejosas, pensamento a vagar.
Então observei, senti, toquei e foi ai que escrevi.
Escrevi o mundo estranho que me habita, a ternura que vaza sempre,
aquela que vive em mim.
Timidamente, febrilmente.
Espaço clareado, aquecido, janelas abertas, trilhas alongadas.
Nem de asas preciso, vôo sem sair do lugar.

maria izabel

 

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